Cirurgias espirituais e acupuntura

14/08/2015 09:17



A partir de dois estudos de caso em diferentes pesquisas e contextos etnográficos pretende-se estabelecer os possíveis pontos de contato entre duas abordagens terapêuticas distintas: as cirurgias espirituais (ou "paracirurgias") e a acupuntura. A primeira, tradicionalmente associada a ambientes religiosos, é realizada à distância, na própria casa do "paciente", e desenvolvida por um grupo de pesquisadores voluntários interessados em analisar determinados "fenômenos parapsíquicos" especialmente relacionados à questão da saúde como, por exemplo, as chamadas "paracirurgias". A segunda, uma modalidade de tratamento de saúde, sendo, inclusive, incorporada ao Sistema Único de Saúde, através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, demonstra de que maneira a questão da crença pode estar diretamente associada às experiências (sensoriais, corporais, emocionais) que o paciente tem durante o tratamento. Assim, as fronteiras entre crença e experiência, representação e ação, ser e significado são afrouxadas justamente porque no domínio dessas práticas tais distinções perdem seus contornos mais nítidos. Vale dizer, a paracirurgia não funciona ou é eficaz porque o paciente acredita nela. A acupuntura, por sua vez, que apesar de ter sua eficácia cientificamente comprovada, não se torna eficaz, sob um ponto de vista nativo, unicamente por essa razão. Tanto uma quanto outra são eficazes pelas transformações e afecções que provocam nos corpos e nas percepções de quem as "pratica", de quem as "atua" (no sentido de enact sugerido por Annemarie Mol [2002]), de quem está "aberto" a receber e "ser afetado" por suas "forças".

Em ambas as práticas se faz presente a ideia de uma "substância" que percorre nossos corpos, nos interligando com o ambiente e todos os seres que nele habita, essencial ao equilíbrio e manutenção de nossa saúde. Se essa substância ou energia, também chamada de Qi, no caso da acupuntura, ectoplasma ou bioenergia, no caso da paracirurgia, estiver em desequilíbrio, a tendência é que isso repercuta no corpo físico gerando alguma enfermidade. No caso da paracirurgia, a doença ou o transtorno evidencia um desequilíbrio, ou melhor, um descontrole, uma desregulação entre ser e ambiente, e a cura visa justamente restabelecer o equilíbrio dessa conexão. No caso da acupuntura,  nos permite perceber um desequilíbrio que é interno ao próprio ser e os pontos trabalhados pelo acupunturista no corpo do paciente visam o restabelecimento desse equilíbrio natural ao corpo. De todo modo, essa distinção entre ser e ambiente, interno e externo, é talvez mais didática do que prática, pois tanto a acupuntura como a paracirurgia procuram evidenciar a profunda conexão entre tais dimensões indissociáveis.


Fonte: Karine Mendonça Rodrigues 



Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!